sábado, 29 de junho de 2013

O livro, esse instrumento da subversão!

Foto: Diego Reis/Reprodução

Na última quarta-feira, 26, uma operação da Polícia Civil do Rio de Janeiro resultou na apreensão de várias armas brancas na casa de um jovem de 21 anos, indiciado, entre outros crimes, por formação de quadrilha e tentativa de homicídio durante manifestação ocorrida na capital fluminense no dia 17 de junho. O suspeito continua foragido. No entanto, o que torna a notícia bizarra é que entre as armas apresentadas pela polícia havia um exemplar do livro Mate-me Por Favor, de Legs McNeil e Gillian McCain, título que conta a origem do punk.

De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, ao ser questionado sobre o livro, recolhido junto com fotos e cartazes que traziam referências aos movimentos punk e anarquista, o delegado Mario Andrade argumentou que a obra fora apreendida para “demonstrar a ideologia dele [suspeito] frente à nação brasileira, de defesa da anarquia (...), mostra que é uma pessoa que não foi fazer uma manifestação pacífica”.

Revoltado com a associação do livro com uma suposta ação criminosa, o editor Ivan Pinheiro Machado, da L&PM, que publicou Mate-me Por Favor no Brasil, desabafou no site da editora: “Não me interessa o que o rapaz fez, mas a naturalidade com que o delegado apreendeu o livro. Um delegado que não serve a uma ditadura e apreende um livro é porque tem a vocação do autoritarismo. [O livro] não faz apologia da violência, ele trata de jovens que foram abandonados pelo sistema e elegeram a música como uma forma de protesto. (...) A L&PM Editores, meu caro delegado, já foi vítima, durante os anos sombrios da ditadura, de vários delegados que odiavam livros. O que me surpreende é que um bom livro seja alinhado junto a facas e correntes e exibido na TV como se fosse uma arma. E ninguém diz nada”.

Mas, afinal, do que se trata essa "subversiva" obra ? Há pouco tempo, escrevi uma resenha de Mate-me Por Favor para o site Whiplash:

Um dos fenômenos culturais mais controversos da década de 1970, o punk não surgiu com os Ramones, muito menos com os Sex Pistols, e ainda que os debutes de ambos sejam marcos do estilo, a origem do movimento envolve muito mais do que músicas de apenas três acordes e revela fatos e tipos que até hoje são capazes de chocar.

Primeira versão lançada no Brasil
Para contar o que foi essa primeira encarnação do punk, os escritores Legs McNeil e Gillian McCain decidiram dar voz a alguns dos protagonistas e coadjuvantes desse enredo movido a overdoses de sexo, drogas e rock and roll. O próprio Legs foi um desses personagens, sendo um dos responsáveis pela alcunha do termo 'punk', ao lançar, em 1975, uma revista com esse nome. Os relatos colhidos pelos autores foram reunidos em Mate-me Por Favor, obra publicada originalmente em 1996, em pleno 'boom' do revival punk encabeçado por bandas como Rancid, Offspring e Green Day.

A partir de depoimentos de Lou Reed, Wayne Kramer, Iggy Pop, Patti Smith, Dee Dee Ramone, William Burroughs, Debbie Harry e outras figuras polêmicas (algumas já mortas na época em que as entrevistas para o livro foram conduzidas e cujas falas foram extraídas de arquivos), reconstitui-se o período que vai de 1965, com os primeiros passos do Velvet Underground, que abriria as portas para o chamado protopunk (representado por MC5, Stooges, Television, Patti Smith Group e New York Dolls), até 1992, quando o punk já havia se diluído em muitas outras combinações.

Em seus primórdios, o punk tinha uma estreita ligação com as artes. Antes do CBGB, a Factory de Andy Warhol (expoente da Pop Art e padrinho do Velvet Underground); o Max's Kansas City, ponto de encontro da vanguarda nova-iorquina; e a St. Mark's Church, onde Patti Smith fez as primeiras leituras públicas de suas poesias, eram os principais redutos da cena. O movimento só se tornaria politizado ao chegar a Londres, em 1975, pelas mãos de Malcom McLaren, que, após empresariar os New York Dolls, levou para a capital inglesa a estética punk para criar seu próprio grupo, os Sex Pistols. O desemprego e a falta de perspectivas dos jovens na terra da rainha criavam o ambiente propício para a disseminação do novo estilo, que se tornaria a trilha sonora perfeita para a pregação anarquista.

Diferentemente do que aconteceu nos Estados Unidos, onde a maioria das bandas locais não vingou, o punk inglês, apoiado mais no visual e “atitude” do que na música, ultrapassou fronteiras, ganhou as manchetes dos jornais, estampou capas de revistas e virou atração nos programas de TV. Para muitos, o movimento havia se transformado em tudo o que ele deveria combater. Era o começo do fim.



Os dois volumes da edição pocket

Em 2012, o trabalho de estreia do Velvet Underground ganhou uma edição especial de 45 anos; lançado uma década depois, Never Mind The Bollocks..., primeiro e único álbum de estúdio dos Pistols, também teve relançamento comemorativo; e por aqui acaba de sair a autobiografia de Johnny Ramone. A história do punk continua relevante e ainda há muita coisa a ser contada.

No Brasil, Mate-me Por Favor foi publicado pela editora L&PM, primeiro num volume único, depois dividido em duas partes no formato pocket. Em tempo: O título do livro foi inspirado em uma frase estampada numa camiseta do ex-baixista do Television e dos Voidoids, Richard Hell.